
BOLETIM
A gestão da paisagem:
uma agenda para a Geografia Política
Dr. Rafael Winter Ribeiro
24/09/2026
Nas últimas décadas, a paisagem deixou de ser apenas uma categoria de interpretação do espaço para tornar-se um objeto de políticas públicas. O tema passou a orientar planos diretores, políticas urbanas, instrumentos de preservação patrimonial, estratégias de conservação ambiental e, mais recentemente, propostas de legislação nacional. A criação da categoria Paisagem Cultural pela UNESCO, em 1992, representou um marco importante nesse processo, mas está longe de ser seu único exemplo. No Brasil, a constituição da Aliança pela Paisagem e a elaboração do Projeto de Lei que institui a Política Nacional da Paisagem evidenciam que a paisagem deixou definitivamente de ocupar um lugar periférico nas políticas territoriais e passou a constituir um campo próprio de ação pública. O projeto, construído coletivamente pela Aliança e apresentado ao Senado Federal, propõe uma política nacional inspirada em experiências internacionais e reconhece a paisagem como um recurso que demanda gestão integrada e coordenação entre diferentes políticas públicas.
Paradoxalmente, essa transformação ainda recebeu pouca atenção da Geografia Política. A paisagem sempre ocupou um lugar central no pensamento geográfico, mas foi tratada predominantemente como uma categoria de leitura do espaço. Hoje, entretanto, ela se converte também em objeto de governo. Gerir uma paisagem significa definir valores, construir instituições, estabelecer instrumentos, arbitrar conflitos, coordenar políticas setoriais e decidir quais transformações são compatíveis com aquilo que uma sociedade considera digno de ser preservado. Em outras palavras, a paisagem tornou-se um problema político.
Essa mudança exige que a Geografia Política amplie seu olhar. A gestão da paisagem não se resume à proteção de cenários ou à conservação de atributos naturais. Ela envolve relações de poder, disputas territoriais e diferentes projetos de futuro. Quem define o que deve ser preservado? Quais grupos conseguem transformar sua paisagem em objeto de políticas públicas? Como se organizam os processos de participação? Quais escalas de governo intervêm nessas decisões? Essas questões aproximam a paisagem de temas clássicos da Geografia Política, como governança territorial, produção do espaço, ação coletiva e conflitos em torno do território.
Essa perspectiva também convida a repensar o próprio patrimônio. Cada vez mais, paisagem e patrimônio deixam de ser compreendidos apenas como objetos de preservação para se afirmarem também como recursos políticos. Uma vez reconhecidos institucionalmente, tornam-se capazes de mobilizar atores, fortalecer identidades coletivas, legitimar reivindicações territoriais e influenciar decisões públicas. Comunidades tradicionais, movimentos sociais, associações locais e governos municipais recorrem crescentemente ao patrimônio e à paisagem para construir legitimidade, acessar políticas públicas, disputar projetos de desenvolvimento ou resistir a determinadas formas de intervenção sobre seus territórios. O patrimônio deixa, assim, de ser apenas um legado do passado para atuar como um recurso mobilizado nas disputas do presente.
É justamente por isso que a gestão da paisagem merece maior atenção da Geografia Política. No caso brasileiro, essa agenda permanece em construção. Enquanto o país consolidou sua presença na Lista do Patrimônio Mundial com quatro Paisagens Culturais reconhecidas pela UNESCO, os instrumentos nacionais de gestão avançaram de forma muito mais lenta. A experiência recente mostra que reconhecer uma paisagem é muito diferente de saber como geri-la. A criação de comitês gestores, a coordenação entre diferentes instituições, a participação da sociedade e a mediação de conflitos revelam que a paisagem é, antes de tudo, um espaço de negociação política.
A emergência dessa agenda representa uma oportunidade para a Geografia Política. Se, ao longo do século XX, a disciplina contribuiu decisivamente para compreender a paisagem como categoria de interpretação do espaço, o momento atual convida a ampliar essa reflexão para as formas pelas quais a paisagem é apropriada, institucionalizada e governada. A gestão da paisagem constitui, nesse sentido, um campo privilegiado para investigar relações de poder, conflitos territoriais, participação social e produção de políticas públicas. Incorporar essa agenda significa reconhecer que compreender a paisagem hoje implica também compreender as formas pelas quais ela é construído enquanto um problema público.

Falta 1 mês para as eleições. E aí?
Dr. Daniel A. de Azevedo
06/09/2026
Publicado em: Correio Braziliense - Acesse aqui
Falta apenas um mês para as eleições e, seguramente, veremos uma chuva de denúncias sobre indivíduos que disputam o pleito ou estão, indireta ou diretamente, relacionados aos candidatos. Quanto mais acirrada for a disputa, mais tenso será esse momento pré-eleitoral. E tudo indica que este pleito será ainda mais difícil que o de quatro anos atrás.
Mas qual eleitor é, de fato, impactado por essas denúncias? Em uma sociedade altamente polarizada, para muita gente pouco importa a gravidade do que venha a público. O super-herói de estimação já foi escolhido há meses e, em alguns casos, anos. Nada impactaria o voto: apenas a militância e a adoração prévia importam. Todo o resto é tratado como perseguição ao político messiânico favorito. Paradoxalmente, nem mesmo as propostas para os próximos quatro anos parecem importar para esses grupos fiéis. Os planos de governo não são lidos e os ouvidos estão fechados para outras opções. Os candidatos sabem disso. Não à toa, faltam deliberadamente momentos de debate: esse pouco caso com o ambiente público eleitoral não lhes tira os votos fiéis.
Há um terceiro grupo, aquele que não é fiel a um político “sob quaisquer circunstâncias”. A esperança é que denúncias e planos de governo atinjam esta parcela da população, aquela que pode decidir as eleições. Mas esse grupo reage de igual modo às denúncias, aos projetos e aos candidatos?
Na pesquisa Real Time Big Data divulgada em 1º de setembro, 11% afirmaram que votariam em branco ou nulo e 16% não souberam ou não responderam. São 27% sem voto atribuído a uma candidatura naquele momento, contingente capaz de alterar os rumos da eleição. Isso não significa que todos pertençam ao mesmo grupo. Quem rejeita as opções, quem ainda não decidiu e quem já escolheu sem aderir a uma militância incondicional têm motivações distintas.
Em artigo publicado na revista Opinião Pública em 2024, Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes analisam um fenômeno importante para entender as eleições: as mudanças tardias na decisão do voto. A partir da diferença entre pesquisas feitas às vésperas do primeiro turno de 2022 e o resultado das urnas, mostram que nem toda discrepância decorre apenas de erros dos institutos. Uma parte pode resultar de movimentos nos últimos dias, ou horas, da campanha.
Os autores destacam dois mecanismos. O primeiro é o voto estratégico, o “voto útil”: o eleitor abandona uma candidatura menos competitiva para tentar impedir a vitória daquela que mais rejeita. Infelizmente, em um ambiente polarizado, esse voto estratégico tende a ser muito grande. O problema é que mudar o voto apenas para derrotar o adversário mais rejeitado não garante uma escolha melhor. É fruto da política polarizada, que força o eleitor a votar no “menos pior” para evitar aquele que rejeita ainda mais. Assim, propostas que rompam essa lógica sequer entram em seu radar. A rejeição é compreensível, mas não deveria substituir a avaliação sobre competência, compromisso democrático e capacidade de governar. O voto útil mais útil ao país talvez seja aquele que olha além das pessoas e pergunta quais instituições cada candidatura pretende fortalecer ou enfraquecer.
O segundo mecanismo é o alinhamento tardio dos indecisos, que não necessariamente se distribuem na proporção indicada pelas pesquisas. Esses eleitores não são necessariamente os mesmos que rejeitam a militância incondicional. Os grupos podem se sobrepor, mas não se confundem. Ainda assim, o estudo lembra que a eleição permanece aberta a movimentos de última hora. A campanha importa: as denúncias, os debates, as propostas, os gestos e os silêncios. Importa também como cada candidatura reage quando confrontada: se explica, se corrige e respeita as regras ou apenas ataca quem pergunta.
Democracias não podem depender de salvadores. Indivíduos passam, mas instituições precisam permanecer. São elas que limitam o poder, protegem direitos e corrigem abusos. Quando se coloca uma pessoa acima das regras, a eleição corre o risco de deixar de ser um mecanismo de escolha para se transformar em ato de devoção.
No dia 4 de outubro, desejo sorte a todos nós. Torço para que as instituições estejam acima dos indivíduos e para que cada voto leve isso em consideração. Que, diante da urna, escolhamos não um herói de estimação, mas um projeto de país no qual ninguém seja maior do que a democracia.

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